sábado, 18 de fevereiro de 2012

Crônica: Baiacu do Beco da Mijada.

Baiacu do Beco da Mijada

Gustavo Henrique S. A. Luna

“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos

”Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

”O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

”O bicho, meu Deus, era um homem.”

(O Bicho, de Manuel Bandeira, em 27 de dezembro de 1947)


    O retinir do gavião nas pedras escondidas do mato rasteiro. Torado no grosso, cara gorda, ensebada, a barba desleixada, a falta dos dentes e um olhar ressabiado formam um conjunto sem vida própria que empunha o instrumento com que ceifa o silêncio por detrás da extinta estação ferroviária. Uma camisa de candidato e uma manga rasgada, um jeito manco e enfezado de se mexer contra o vento e a fedentina urinosa de um ambiente só por ele lembrado.
    Quando a madrugada se entregava, também se rendia a um canto inexistente da estação, numa posição fetal, de quem espera regredir um dia ao estado nonato, seu único vínculo humano. Um lençol tingido de barro e sangue e um ventre de corrupção, os dois únicos refúgios da morte, a única lembrança humana que tem. E segue amealhando o resto de sonho que nunca existiu, com força, franzindo a testa grossa, suada e rombuda, num esforço vão de reencontrar o fio de vida que o pôs no mundo. A tarde acorda um corpo de bicho, insensível, e sai em busca do resto, do podre dos outros, num comensalismo cíclico.
    O primeiro contato com a vida escorrendo vermelha nas mãos veio rápido, num golpe, cheirando a mijo, o gavião no pescoço fino de um drogado. Acordado pelo riso cretino de um arruaceiro e um jato quente na cabeça, escorada num paralelepídedo. Uma madrugada desfeita, sem o golpe nas pedras, uma experiência nova e contagiante: um pescoço. E se via morrendo junto àquele corpo cheirando a maconha, nos olhos distantes, vermelhos. As mãos, o ventre, os olhos. E sentiu-se novo, enxuto, um pouco mais desligado do mundo.
    E, desde então, não se ouviu mais o retinir das pedras.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Crônica: Balneário, futebol e um chevette.

Chevrolet Chevette (1980)

Balneário, futebol e um chevette

Gustavo Henrique S. A. Luna

    Fim de semana significava balneário, e assim todo o mundo combinava o programão: a reca de amigos, o chevette azul do primo, o corcel, e a promessa de manhã prazenteira: o futebolzinho, os banhos no Serrano e o almoço em Chico da Cascata. Um sempre se encarregava da bebida: a indefectível Kariri, para o momento certo. Era ritual praticado por absolutamente todos do grupo. Certamente nunca houve movimento sabatino mais imperioso do que essa reunião de doze amigos de longa data. Praticamente um ritual.
    Em ocasiões bem especiais, quando a empolgação era um tantinho maior e a Kariri um pouco mais convidativa, punham em prática o espetáculo que chamava a atenção de quase todos do clube: o racha entre duas equipes compostas por atletas autoconfiantes, por duas seleções recheadas de craques, completamente chumbados, entanto. Todo o mundo melado disputava o domínio da bola, outros tentavam ficar em pé, alguns praguejavam contra o gramado ou a falta dele, e o goleiro com seus reflexos duvidosos, em se levando gol, sempre punha a culpa num zagueiro mais distraído, que marcava o próprio companheiro de zaga. Um dos bruegas sempre tentava racionalizar a decadência de seu time dizendo que o motivo do desempenho capenga seria a altitude do clube e, em perdendo o embate, ameaçava a equipe adversária, intimando a que jogassem em plano mais baixo. Repetia que aquela subida do Lameiro rarefazia o ar, prejudicava a respiração e assim sua equipe jamais poderia dar o melhor de si.
    Como era de se esperar, sempre havia um gol contra. E tudo começava com um passe errado. Em nada adiantava separar os times em vestidos e descamisados, que o nível de embriaguez suplantava a percepção desse detalhe. Sempre havia um escroto que recebia um toque equivocado do zagueiro adversário e, como se fosse feitiço ou proselitismo de fanático, se convertia, achando ser do time do que lhe fez a assistência. Era o princípio do gol contra, que, a bem dizer, não tinha tanta importância se o jogo já estivesse bem adiantado. Nessa ocasião, ninguém percebia que era contra e todo o mundo comemorava do mesmo jeito. Assim era um prato cheio assistir ao atacante sair driblando a la Marrentinho Carioca todos os companheiros de time e arrematar a jogada de mestre. Contra, mas de mestre.
    Dava onze da manhã e a próxima parada era Chico, os doze se distribuíam nos dois veículos, o chevette do primo e o corcel branco. Iam todos assardinhados naqueles dois fósseis ambulantes, todos barulhentos, falando bosta e botando boneco numa viagem suicida. Um dos bêbados cara-de-pau ainda tinha o topete de reclamar da via e de suas curvas sinuosas, e também sempre havia aquele que reclamava da lerdeza do condutor bocó, dizendo que não haveria mais peixe nem baião quando chegassem em Chico.
    Nessa tarde, voltando do restaurante, que, por sinal, serve o melhor peixe frito com fruta-pão e baião-de-dois da região caririense, o primo ferrou o chevette azul, bala, todo restaurado, na lateral de um C4 Pallas, na descida do Lameiro. Um dos amigos, no banco do carona, voltava com o abalroador.
    O carona pensou que o resto de juízo do primo fosse embora diante da desgraceira que tinha provocado no carro alheio. Ele, no entanto, já bem melado, saiu do chevette gritando, com toda a verve de poeta do caradurismo que só a Kariri com K pode lhe inspirar:

— Essa tua carroça apapagaiada é muito desaforada pra se meter na frente de meu chevette!

    E, antes que o outro dissesse um ai de protesto, o cu-de-cana prosseguiu o seu discurso molhado, que faria inveja a qualquer um dos mais profundos e ataviados discursos do Águia de Haia.

— Mas, como pareces ser sujeito algo inopioso e sou mui generoso e indulgente…

    Aí lascou, foi a vez em que o bruega começou a ordenar que o camarada abonasse suas qualidades, papo de bêbado chato, como se todo o caráter “incutucável” do infeliz dependesse de seu depoimento. E, dentro do carro, já impaciente, ia confirmando tudo… “Inopioso”, o égua deu até de retirar aquele adjetivo feio da cachimônia triscada. Mas, então, já satisfeito com a participação do parente, voltou a soluçar o discurso ao dono do C4:

— Como dissera, sou mui generoso e por isso mesmo me apiedo imensamente de ti, façamos, pois, o seguinte: para não te prejudicar financeiramente, tu pagas o teu, que eu pago o meu. E fim de papo!

    Entrou no chevette amassado e arrancou.

 

(fonte e licença da imagem: http://bit.ly/xotVlE e http://bit.ly/yeqiSm)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Poesia: O vetor são os teus olhos, do atroz vírus do Amor.

    Um quadrão sem o estribilho final evidentemente não é um quadrão. Para não blasfemar contra o rigor desse gênero popular de poesia, assim não chamo esses oitos pés que fiz agorinha, apesar de os elementos da versificação estarem interiços. 

   Dedico estas linhas ao olhar perigoso, contagioso, das moças fagueiras, que contaminam de amor o mundo que uns tantos teimam em enfear.

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O vetor são os teus olhos,
Do atroz vírus do amor.

(Gustavo Henrique S. A. Luna)

 

O olhar é uma facada,
De peixeira enferrujada,
De amor contaminada,
Desvirtuando o meu ser.
Desse mal padecerei,
E a ele me entregarei,
Dele só me livrarei,
Quando de amor eu morrer!

Dessa doença eu padeço
Pois quero, com todo o apreço,
Essa chaga, que eu mereço
Ser moribundo de amor.
De moribundez eterna
Minha feição é subalterna
Ao mal que sempre governa
E é nobre guerreador.

Doencinha perigosa
Fingindo ser mui manhosa
Com os olhos dedilha a prosa
De rico vocabulário.
São duas glosas de amor,
Obras de Nosso Senhor,
Dois olhos de tal fulgor
Merecem proprietário.

Uma pugna em que eu luto
Seguindo um regime bruto
E com dois olhos disputo
A graça da moça inteira.
Me vendo, ela não se rende,
Com gosto, o corpo me prende
Faz vinco na alma, fende,
Com violência fagueira.

Pois que seja eu o dono
E tire do abandono,
Depois coloque num trono
Essas duas joias raras.
Que assim terão bom destino
Esses dois globos divinos,
E neles eu descortino
Do mundo as belezas caras.

É um misto de enlace e guerra,
Contenda que não se encerra,
Só finda quando soterra
O mais feliz perdedor.
Diz que então morre contente,
Pois de amor foi um doente,
Contraiu por acidente,
O atroz vírus do amor.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Crônica: O patético caso de engasgo.

O patético caso de engasgo

Gustavo Henrique S. A. Luna

a01     Há meses a campainha desta casa pifou. Era uma daquelas bem vagabundas que sequer se ligam à rede elétrica, funcionando à pilha mesmo. Desde então, atender a quem quer que nos venha visitar ficou um pouquinho complicado. Ninguém escuta quem bate. O vestíbulo da casa é extenso e, como fica todo o mundo socado em seus quartos, há sempre aquela apreensão, ao mínimo ruído metálico, de que estejam batendo no portão. Derrubam um caneco pela área do alpendre e já tem gente saindo do quarto e gritando que há alguém à porta. Um dia desses, em rara e felizmente efêmera ocasião, uma araponga resolveu figurar próximo ao rio, perto de casa. Esse episódio foi um inferno e, por infeliz coincidência, houve visitas, evidentemente não atendidas. Todo o mundo se conformara. 
    — “É a droga da ave!”.
    Hoje mesmo fui surpreendido pensando num blefe. Alguém realmente batia. Talvez por polidez, fazia com suavidade fora do comum, como se temesse danificar a estrutura metálica. Achei que fosse qualquer outra coisa, exceto alguém no portão. A apreensão me fez verificar. Era uma senhorinha com um cachorrinho nos braços. Um cãozinho castanho, de pelagem rala, da raça Pinscher. Ela, com os olhos molhados, me perguntava se o meu avô estava. Referia-se a meu pai. Antes que fosse chamá-lo, ela passou a explicar que havia um cão engasgado com um osso, mas não me disse assim, na lata. Foi uma novela para esclarecer a situação. A fala atrapalhada dava a entender que o cão em apuros não fosse o que ela trazia consigo. Enrolava, se confundia, tentava retomar o raciocínio, mas voltava a se atrapalhar. “O meu sobrinho saiu… Ele ‘tá engasgado… Eu ‘tou sozinha, e ele ‘tá demorando demais. O pobrezinho vai morrer. É porque tem um cachorrinho…”. Desse modo começou a contar a história. De imediato, antes de ela enredar o caso do animal, interrompi e perguntei onde estava o sobrinho, pensando que fosse ele quem corria risco de vida. A referência distante ao cachorro me acerou um tantinho de impaciência.
    — “E onde está o cão, minha senhora?”.
    — “É este aqui.”
    E o animal imóvel, com os olhos arregalados, quase sem evidenciar respiração. Havia me dito que não conseguia retirar o osso sozinha. A moribundez no olhar do bicho me chamava a atenção. Pedi que ela segurasse as patas e o tronco, enquanto me arriscava a retirar osso. Deu certo. E, no mesmo instante, a resposta de vida meio insólita: o animal se agitou, escapuliu dos braços da velha, saiu correndo, latindo, como se nada lhe houvesse acontecido.
    — “E a senhora é muito apegada a ele?”.
    — “Não muito. Meu irmão comprou hoje e deu de presente a Juninho.”.
    Fui então saber se ela não queria entrar e tomar uma água para tentar se acalmar um pouco. Os olhos molhados e meio avermelhados, de quem já chorou tudo que tinha de chorar.
    — “E por que a senhora está chorando?”.
    Franziu a testa. Demorou a responder, repetindo o copo d’água. Bebia com sofreguidão. Mas a feição era de placidez.
    — “Não ‘tou chorando, meu filho. É conjuntivite.”.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Crônica: A dor de cabeça dos pais.

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A dor de cabeça dos pais

Gustavo Henrique S. A. Luna

    Pra ser sincero, digo, sem vergonha alguma, que não sou dado a escrever sobre memórias. Confesso: não tenho jeito pra isso. Muito menos quando as memórias são alheias. Hoje papai já não costuma me contar as suas histórias, como fazia quando eu era bem menino. Talvez seja a minha idade a razão do desinteresse dele pelo relato de suas aventuras de infância no Brejo Grande. É possível que ele pense que elas já não me interessem com a mesma força de antigamente, quando nós nos sentávamos na calçada de nossa antiga casa, na São Francisco, debaixo duma acácia, na boca da noite, e ele traçava suas peripécias de cabrinha do buchão. Naquele tempo, no tempo da acácia, notícia séria ou interessante, pra mim, não vinha do telejornal, vinha da resposta de papai à minha pergunta diária: “E aí, pai? Quais são as novidades?”. Mesmo que não houvesse novidade alguma, ele sempre dava um jeito, arrumava algo novo pra me contar. Era como meu velho fechava o meu dia com chave de ouro, com um momento terno de cumplicidade. Agora eu me sinto um traidor, partilhando com vocês aquilo que me segredava de modo tão entusiasmado.
    Ele tem muitas histórias, e algumas tantas são bem engraçadas. Aliás, ele todo, até hoje, tem umas atitudes que saem do tom e fazem os próximos rirem quando lhas conto. Outro dia, janelando de madrugada, quase no primeiro canto do galo, vi o velho pedalando, numa calói vermelha, barra circular, com toda a intensidade meninil (de pau, como diz bonitamente a mocidade), pra cima e pra baixo, dando voltas na quadra e chamando a atenção dos cães da vizinhança. Foi o dia em que deu uma de baderneiro feliz, acordando os nossos ex-vizinhos da Padre Ibiapina. “Pai, Dô quer ir pra casa. Devolve logo essa bicicleta e vem dormir!”, disse, invertendo os papéis. Ao que o ciclista da melhor idade respondeu: “Quer nada. Ele ainda ‘tá é no bar de Toinho, jogando sinuca e embicando umas lapadas.”. Parecia menino, arrumando desculpa pra dar mais uma volta no quarteirão.
    Outra vez bateu boca com os membros da Jovem Crato por conta da zoada que fazia a torcida (des)organizada, num barzinho enconstado na casa da Pe. Ibiapina. Era o aquecimento deles, antes do jogo. Cantavam o hino, soltavam fogos e reproduziam música no volume máximo, imagino, que podem suportar os amplificadores de som que se engastam nos carros. Do copiá, gritou a pior ofensa que poderia ser proferida a um grupo de torcedores fanáticos: “Tomara que o Crato perca!”. Daí levou em troca uma saraivada de vaias, quase em uníssono, não fosse um sujeito mais escroto ter gritado de volta: “Cala a boca, Dedé!”. Pronto, foi o suficiente para que ele ligasse pro Ronda, que chegou, com muito atraso, e encontrou o canto mais limpo. Como se diz no jargão policial, todos já se haviam evadido do local do crime. Não havia evidências de nada, e o assunto se encerrou ali. Ficou por isso mesmo.
    Mas e as peripécias da infância? Me desviei porque o homem tem é história. Da adultidade tem coisas tão gravemente engraçadas quanto as da meninice. Meu pai é o mais novo dos homens, de uma prole enorme. Quem o conhece hoje certamente vai duvidar, mas eu ratifico: ele é mais novo do que tio Zequinha, aquele que mantinha a farmácia Santa Inez, ali na Bárbara de Alencar. Se o meu tio ler esta crônica, ele vai praguejar dizendo o contrário. Pois eu já brinco afirmando que a fuselagem de papai é que está um pouco avariada, certamente pelos excessos da vida. Deixando de lado os detalhes etários e voltando à infância do velho, todos me dizem que, justo por ser o caçula, sempre foi muito mimado. É provável que seu gênio de traquinas tenha como causa esses mimos todos. Conta-se que, em dada ocasião, não se sabe bem o motivo, ele tenha mijado dentro das cabaças com que os trabalhadores de meu avô bebiam água durante o almoço. Imagine a presepada e a pisa que não deve ter levado de vovô Mundico.
   Outra história diz respeito a um xodó de Roque, um ave linda com que fora presenteado pouco tempo antes de meu pai ter posto seu olhar de guerra pra cima do bicho. Era um pavão robusto, volumoso, que Roque fazia questão de mostrar a qualquer vivente que pisasse em sua casa. Puxava o cabra pro terreiro e dizia: “Olha ali, homem, que coisa mais linda!”. Diz-se até que a devoção era tanta, que ele chegava a conversar com o animal. Desmotivadamente agiu de novo o endiabrado. Afinal, menino ruim não precisa de motivo pra fazer diabrura. Numa andaça, à tardinha, escutou o grito da ave no terreiro do homem e, talvez já cansado de matar lagartixa, resolveu uma investida mais ousada: puxou o bodoque e mirou, já bem perto do cercado. Acertou a pedra no quengo do bicho, que saracoteou desesperado, com seus gritos de socorro. O que tinha de volume e de robustez, tinha de vigor. Não morreu. Cegou.
    E mais: inventou de ingressar no cargo de empresário mirim de luta livre, financiando brigas as mais violentas entre os amigos de infância. Como o que não faltava na casa grande de vovô Mundico era rapadura, por conta do canavial e do engenho, fazia desse quitute o prêmio para o vencedor de cada briga. O que não faltava atrás de meu pai era menino querendo trocar uns tabefes por uma banda de rapadura. E assim ele ia organizando os embates: hoje fulano luta com sicrano, e o outro ali com beltrano… Veja bem, camarada: meu pai, ainda menino, já era visionário! Foi o primeiro a investir pesado na prática de luta livre, já no meio infantil. Muito antes de Dana White pensar em existir, nos idos de 50, já estava lá meu velho fazendo uns cabrinhas caírem no cacete por uma banda de rapadura. Fez isso por um tempinho, até vovô Mundico descobrir a marmota e quase lhe torar o espinhaço de tanta lapada com cipó de embira.

Crônica: Se correr, é pior!

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Se correr, é pior!

Gustavo Henrique S. A. Luna

    No caso, era uma chinelada nas canelas, uma "havaianada" no meio do espinhaço, uma "cinturãozada" com o "plus" de uma fivela da grossura de um dedo mindinho.
    Uma história rapidinha: quando "menino-véi-do-buchão", tinha atirado uma tigela de gelatina de morango em Niele, lambuzando a camisola que minha irmã usava. Ora, ela, muito mais velha que eu, partiu na carreira; eu, entanto, saí batendo os calcanhares na bunda. Enfim, ela não me alcançou. E também saiu dizendo que, se eu corresse, seria pior. Como estava em vantagem na carreira, não tive dúvida alguma, continuei ligeiro em direção ao oitão dianteiro da casa. Lembro, no entanto, que a corrida não havia sido de todo fácil. Havia uma série de obstáculos. Como me havia programado mal, tomei o trajeto errado, o corredor entre o linde interno da casa e o oitão da lateral esquerda, que servia de canil para o velho capitão Bubu (que Deus o tenha bem no Céu dos Cachorros!) e onde também havia fincado morada um outro ser, bem menos barulhento do que o nosso cão patrulheiro, um mamoeiro macho que, não sei como, resistia incólume às unhadas diárias do cão. Nessa curta distância, pouco menos de dez metros, havia duas muretas de concreto, as duas entradas para o canil. Havia portinholas, mas, com a pressa com que vinha, elas não me ajudaram muito. Saltei (Deus sabe como o fiz), sem perder o pique, a primeira mureta, dei com os peitos no tronco do mamoeiro e, já na segunda mureta, ralei a perna na parte de cima da portinhola de metal. A corrida com obstáculos não acabaria na travessia da morada do velho Bubu. Quando tomei a direita, já com o intuito de saltar o oitão da frente e me ver livre de uma "cinturãozada" de Niele, que então espumava de chateação, acabei passando pelo copiá, onde havia um viveiro, quatro cadeiras e uma mesa de centro. Relembrando isso, ainda digo que as mães planejam o ambiente com o intuito de que os filhos se machuquem. Bom, lembro que dei com o mindinho na quina da mesa de centro. O medo da "cinturãozada" foi maior do que qualquer esboço de careta ou do que a expressão de palavrinhas sujas inspiradas pela dor, que tardou, mas veio. Saindo do copiá, veio a redenção: com dois ou três pulos, da parte mais alta do corrimão esquerdo da escadaria, me enganchei num galho velho da quixabeira (ah! a quixabeira! tempo bom de meninice) e daí me pendurei em cima do muro. Pronto! Minha homérica aventura de infante estava concluída. Os detalhes finais talvez incluam alguma zombaria que prestei, ainda em cima do muro, orgulhoso de minha façanha, à irmã, que bufava de raiva. Tinha a certeza de que a "falta-de-vergonha" [que bem compreenda o leitor, neste momento, o que quero dizer com essa "falta"], típica da meninice, não pertencia mais a minha irmã, no vestíbulo da adultidade, e que, por isso mesmo, teria sido impedida pela vergonha de se expor aos olhos dos vizinhos ao correr atrás de um menino, como se também fosse uma meninona. Ledo engano: era uma meninona, sim! Uma meninona que correu atrás de um menino, mas dentro de casa. Essa foi a grande diferença.
    Bom, a verdade é que saltei, atingindo o calçamento da Rua Pe. Ibiapina, em Crato. Uma liberdade que só pode ser experimentada por quem já extraiu o máximo da infância.
    Depois veio a dor no mindinho torto, excruciante...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Crônica: Bicho-do-mato.

Bicho-do-mato

Gustavo Henrique S. A. Luna

p04     Sou um bicho-do-mato. Agora sei que sou. Depois de tanto teimar que não, percebo que o que mais faço é assumir a postura de um bicho-do-mato. Seja na saída desazada, em que a conversa não se faz fluida, em desarmonia com o assunto discutido pelos demais que me acompanham, seja no modo acabrunhado como cumprimento os outros, como economizo no jeito de expor afabilidade. Costumava me chamar assim um tio quando, ainda muito novo, com meus seis ou sete anos, em meio a uma roda de parentes, sempre muito barulhentos e numerosos, me expunha, por livre e espontânea pressão dos pais. “Ei, bicho-do-mato! Vem cá!”, e me puxava e me punha no colo, com a simpatia de homem falante, piadista e bom.
    Era todo o cuidado que tinha com o desconhecido, com o inesperado, com o exagero dos ânimos. Era uma gente que ria demais, que ria de tudo, e eu sempre muito sério, sem entender muito bem de onde vinha toda a graça. Um menino, de seis anos, e sério. Quinha era que dizia a Dedé: “Esse teu menino parece um velho. Vi ele nesse instante. Passou, sem camisa e descalço, com a testa franzida, rumo à bodega de Seu Chico. Parecia um hominho.”. Essa seriedade era só de fachada. Ia danar a comprar picolé de limão, fiado, na conta de meu pai. Era um estrago que lhe fazia durante quase todas as tardes de futebol trave-fechada, no calçamento da rua onde vivi parte de minha infância. A rua era a São Francisco, aqui em Crato mesmo. Nesta cidade, em Juazeiro e em Barbalha, além de hospital, tem muita rua com nome de santo: é São Pedro, São Paulo, Santo Antônio etc. E seguia correndo com os dedos grudentos, pés descalços, tomando posição nos embates acalorados desses fubebóis de bico de pedra. Mas era um bicho-do-mato seletivo: com os comparsas da infância compartilhada, ficava à vontade para um rachinha, para as conversas leveiras, regadas a piadas e histórias de sacanagem que os mais velhos contavam; para uma gente diferente, efusiva demais, era a personificação da desconfiança, era o não-saber-o-que-dizer.
    Numa dessas, estava com meu pai, fazendo não sei o quê, talvez lhe aproveitando a companhia para pedir alguma besteira pra comer, na bodega do finado Chico Henrique, homem bom e comerciante ainda melhor. O pai jogava baralho com os camaradas, e eu ficava por perto, de olho no carteado, acerando a minha intenção pidona, até que lhe saísse a frase incomodada: “Que é que tu quer, menino?!”. Foi justo nesse dia que tive de deixar de lado o incômodo do encabulamento, com o dever da palavra, para delatar um criminoso. Tarefa das mais árduas, já que o meliante era barra-pesada e estaria, naquela ocasião, furtando ao velho Chico, querido por todos daquelas bandas. Era um frangote, recém-ingresso na adolescência, escondido debaixo do balcão da bodega, descamisado e com o calção verde cintilante cheio de pratas e de cédulas. Primeiro, a intimidação quando vi aqueles dois olhos ameaçadores, se arreminando por minha afronta de tê-los arrostado; depois, o indicador em riste, no meio do rosto que se coadunava com o negrume debaixo do balcão, pedindo silêncio, aliás, exigindo, sob a ameaça de me fazer qualquer mal posterior. E a ameaça era real: ele me apontou e, em seguida, bateu o punho cerrado na mão espalmada, como quem diz: “Eu te pego, seu bostinha!”. Sabia bem quem eu era e onde costumava andar e brincar. Apesar da convicção que assumira, planejei bem como haveria de entregar o criminoso. Tinha de delatar o filho-de-uma-égua de um jeito ou de outro, mas não podia ser assim, de cara, até porque, em se sabendo notado, à primeira atitude de delação que esboçasse, ele teria sucesso em fugir pela saída mais próxima da bodega, sem ser reconhecido, ligeiro feito coice de bacorinho.
    Não tardaria e meu pai teria de deixar o carteado, os amigos e a bodega pra levar o pão do jantar. Esperei então que isso acontecesse. Fui saindo e, sumindo do campo de visão do moleque, entreguei a situação a meu pai, que, disfarçadamente, ou melhor, que, escrotamente, voltou à bodega, fincou pé em frente à portinhola do balcão e disse a Seu Chico: “Chico, e esse menino zambeta debaixo do balcão, quem é?”. Pronto, nisso foi desfeito o furto. Depois de uns tabefes, o menino saiu ainda aluado de tanta mãozada que levara. Ainda balbuciou, em meio aos tabefes que levava e à saraivada de nomes feios que dizia, o motivo do furto. Usaria o dinheiro para quitar uma dívida que tinha com o sorveteiro Raimundo, homem bom e de bom papo que passava quase todas as tardes na São Francisco e que era conhecido por, a bem dizer, todo o mundo do bairro. Era ele, o carrinho e a voz de sorveteiro aboiador, gritando como quem pede passagem: “Sorveteiro!”. Gritava bonitamente, como quem tangia gado.
    Mas isso tudo muda com as exigências futuras. Envelheci, mas não muito. O espírito ainda está nos trinques, como o do hominho. Quando se tem de comunicar de modo pelo menos razoável, a gente desata o nó da fala e diz o que tem de ser dito, como quem tem a difícil tarefa de apenas informar. A gente objetiva as ideias na fala, sem se deixar enganar pelo que mais poderia ser dito.
    Conversando, outra vez, com uma amiga, por telefone, ela me passou o neologismo cheio de graça e, ao mesmo tempo, temperado de sensatez: extrovertímido. Foi isso que passei a ser desde que a comunicação presta e incisiva passou a ser a regra. Hoje sou um bicho-do-mato extrovertímido.

A imagem de cabeçalho é montagem de algumas obras do pintor belga Jos de Mey.