Balneário, futebol e um chevette
Gustavo Henrique S. A. Luna
Fim de semana significava balneário, e assim todo o mundo combinava o programão: a reca de amigos, o chevette azul do primo, o corcel, e a promessa de manhã prazenteira: o futebolzinho, os banhos no Serrano e o almoço em Chico da Cascata. Um sempre se encarregava da bebida: a indefectível Kariri, para o momento certo. Era ritual praticado por absolutamente todos do grupo. Certamente nunca houve movimento sabatino mais imperioso do que essa reunião de doze amigos de longa data. Praticamente um ritual.
Em ocasiões bem especiais, quando a empolgação era um tantinho maior e a Kariri um pouco mais convidativa, punham em prática o espetáculo que chamava a atenção de quase todos do clube: o racha entre duas equipes compostas por atletas autoconfiantes, por duas seleções recheadas de craques, completamente chumbados, entanto. Todo o mundo melado disputava o domínio da bola, outros tentavam ficar em pé, alguns praguejavam contra o gramado ou a falta dele, e o goleiro com seus reflexos duvidosos, em se levando gol, sempre punha a culpa num zagueiro mais distraído, que marcava o próprio companheiro de zaga. Um dos bruegas sempre tentava racionalizar a decadência de seu time dizendo que o motivo do desempenho capenga seria a altitude do clube e, em perdendo o embate, ameaçava a equipe adversária, intimando a que jogassem em plano mais baixo. Repetia que aquela subida do Lameiro rarefazia o ar, prejudicava a respiração e assim sua equipe jamais poderia dar o melhor de si.
Como era de se esperar, sempre havia um gol contra. E tudo começava com um passe errado. Em nada adiantava separar os times em vestidos e descamisados, que o nível de embriaguez suplantava a percepção desse detalhe. Sempre havia um escroto que recebia um toque equivocado do zagueiro adversário e, como se fosse feitiço ou proselitismo de fanático, se convertia, achando ser do time do que lhe fez a assistência. Era o princípio do gol contra, que, a bem dizer, não tinha tanta importância se o jogo já estivesse bem adiantado. Nessa ocasião, ninguém percebia que era contra e todo o mundo comemorava do mesmo jeito. Assim era um prato cheio assistir ao atacante sair driblando a la Marrentinho Carioca todos os companheiros de time e arrematar a jogada de mestre. Contra, mas de mestre.
Dava onze da manhã e a próxima parada era Chico, os doze se distribuíam nos dois veículos, o chevette do primo e o corcel branco. Iam todos assardinhados naqueles dois fósseis ambulantes, todos barulhentos, falando bosta e botando boneco numa viagem suicida. Um dos bêbados cara-de-pau ainda tinha o topete de reclamar da via e de suas curvas sinuosas, e também sempre havia aquele que reclamava da lerdeza do condutor bocó, dizendo que não haveria mais peixe nem baião quando chegassem em Chico.
Nessa tarde, voltando do restaurante, que, por sinal, serve o melhor peixe frito com fruta-pão e baião-de-dois da região caririense, o primo ferrou o chevette azul, bala, todo restaurado, na lateral de um C4 Pallas, na descida do Lameiro. Um dos amigos, no banco do carona, voltava com o abalroador.
O carona pensou que o resto de juízo do primo fosse embora diante da desgraceira que tinha provocado no carro alheio. Ele, no entanto, já bem melado, saiu do chevette gritando, com toda a verve de poeta do caradurismo que só a Kariri com K pode lhe inspirar:
— Essa tua carroça apapagaiada é muito desaforada pra se meter na frente de meu chevette!
E, antes que o outro dissesse um ai de protesto, o cu-de-cana prosseguiu o seu discurso molhado, que faria inveja a qualquer um dos mais profundos e ataviados discursos do Águia de Haia.
— Mas, como pareces ser sujeito algo inopioso e sou mui generoso e indulgente…
Aí lascou, foi a vez em que o bruega começou a ordenar que o camarada abonasse suas qualidades, papo de bêbado chato, como se todo o caráter “incutucável” do infeliz dependesse de seu depoimento. E, dentro do carro, já impaciente, ia confirmando tudo… “Inopioso”, o égua deu até de retirar aquele adjetivo feio da cachimônia triscada. Mas, então, já satisfeito com a participação do parente, voltou a soluçar o discurso ao dono do C4:
— Como dissera, sou mui generoso e por isso mesmo me apiedo imensamente de ti, façamos, pois, o seguinte: para não te prejudicar financeiramente, tu pagas o teu, que eu pago o meu. E fim de papo!
Entrou no chevette amassado e arrancou.
(fonte e licença da imagem: http://bit.ly/xotVlE e http://bit.ly/yeqiSm)
Há meses a campainha desta casa pifou. Era uma daquelas bem vagabundas que sequer se ligam à rede elétrica, funcionando à pilha mesmo. Desde então, atender a quem quer que nos venha visitar ficou um pouquinho complicado. Ninguém escuta quem bate. O vestíbulo da casa é extenso e, como fica todo o mundo socado em seus quartos, há sempre aquela apreensão, ao mínimo ruído metálico, de que estejam batendo no portão. Derrubam um caneco pela área do alpendre e já tem gente saindo do quarto e gritando que há alguém à porta. Um dia desses, em rara e felizmente efêmera ocasião, uma araponga resolveu figurar próximo ao rio, perto de casa. Esse episódio foi um inferno e, por infeliz coincidência, houve visitas, evidentemente não atendidas. Todo o mundo se conformara.
Sou um bicho-do-mato. Agora sei que sou. Depois de tanto teimar que não, percebo que o que mais faço é assumir a postura de um bicho-do-mato. Seja na saída desazada, em que a conversa não se faz fluida, em desarmonia com o assunto discutido pelos demais que me acompanham, seja no modo acabrunhado como cumprimento os outros, como economizo no jeito de expor afabilidade. Costumava me chamar assim um tio quando, ainda muito novo, com meus seis ou sete anos, em meio a uma roda de parentes, sempre muito barulhentos e numerosos, me expunha, por livre e espontânea pressão dos pais. “Ei, bicho-do-mato! Vem cá!”, e me puxava e me punha no colo, com a simpatia de homem falante, piadista e bom.
Quando interpretou “Acauã”, de Zé Dantas, decantou o que há de mais puro e representativo da seca na fauna do semi-árido, através da descrição lamuriosa da ave agoureira. Essa canção, de tão recheada de beleza e de poesia, me inspirou a escrever as minhas primeiras décimas, aos moldes do gênero popular, que tem por título e mote “A Acauã de novo ilustra/ Triste seca no sertão”, que pode ser lida neste blogue através deste
Quando registrou o corriqueiro e o pitoresco da crônica sertaneja, cheia, até a tampa, de um humor inigualável, como foi o caso da canção “Samarica Parteira” (de Zé Dantas), “Dezessete e setecentos” (de Miguel Lima), “Não vendo nem troco” (com Gozaguinha), “O forró de Mané Vito” (com Zé Dantas), “Derramaram o gai” (com Zé Dantas), “Siri jogando bola” (com Zé Dantas), “Lorota boa” (com Humberto Teixeira), “Galo Garnizé” (com Miguel Lima), “Lá vai pitomba!” (com Onildo Almeida), “Ovo de codorna” (de Severino Ramos), “Capim novo” (de José Clementino, recentemente falecido), “Buraco de tatu” (de Jadir Ambrósio e Jair Silva), “Faz força, Zé” (de Rosil Cavalcante), “O tocador quer beber” (com Carlos Diniz), “Casamento improvisado” (de Rui Morais e Silva) etc., Gonzaga resgatou nessas canções o trocadilho, o sarro, a gozação, através da figura do sujeito preguiçoso, que não quer trabalhar; da metáfora do buraco de tatu; do valentão que acaba o samba no forró de Mané Vito; do pitoresco e do surrealista na imagem do siri jogando bola; da altercação financeira sobre o troco que deveria ser de 16.700 réis; do registro duma carreira desaforada que tomou, em riba de uma bestinha, um dos trabalhadores do Capitão Balbino, atrás de Samarica, uma parteira da região; da descrição supreendente da paixão por uma égua; do festival hilário de lorotas muito criativas; do cabo que se deu ao galo da vizinha por ele ter-lhe beliscado o pé; dos efeitos revigorantes (dizem) do ovo de codorna; do tratamento inovador com “capim novo” para o amigo velho que já está enviesando o serviço, sem energias; da engraçadíssima narrativa de um sujeito medroso que não soube conquistar a donzela e mandou outro indivíduo, mais esperto, fazer o serviço; e por aí vai.
O mundo musical do Rei do Baião é um universo que não cabe em si mesmo. Quando musicou as redondilhas menores de Patativa, do poema “A Triste Partida”, não só contribuiu com a popularização da temática do sertanejo flagelado, que deixa seu torrão em busca de vida melhor em outras terras, como também ajudou a levar às demais regiões do País o nome dessa ave candora que tanto nos orgulha com poesia simples, pura e bela. Quando cantou o nosso conterrâneo ilustre Aderaldo Ferreira de Araújo, o Cego Aderaldo, imortalizando o trava-língua “Quem a paca cara compra paca cara pagará”, criado por Firmino Teixeira do Amaral, o inventor, por sinal, desse gênero temático de poesia (veja este
Hoje, de manhãzinha, assistindo a uma reportagem sobre o dia do forró, feita por emissora de tevê cearense, pude conferir os depoimentos de alguns músicos sobre a importância da canção de Gonzaga, e um deles, Waldonys, o Garoto Atrevido, como o Rei lhe chamava, disse uma verdade que revela uma das características musicais mais importantes de Gonzagão, um traço que só pode ser encerrado por verdadeiros gênios da música: a canção de Gonzaga é atemporal! Você não escuta um sujeito dizer, ao ouvir uma música sua: “Eita, que essa é das antigas!”. Isso não existe quando o assunto é o Rei do Baião, um artista atualíssimo, principalmente porque cantou um tema imarcescível, que é o tema sertanejo, um assunto perene no inconsciente popular de todo e qualquer nordestino. E, enquanto esse sentimento nordestino, popular, estiver vivo, pulsando dentro do nosso peito, a música de Gonzagão viverá!
